Páginas

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ano Novo, Velha Seca. Cadê a chuva São Pedro? (Carmen)

                     Mais de 8 milhões de brasileiros sofrem com o atual período de semiaridez, definido por especialistas como a pior seca dos últimos 40 anos.
                     

                    
           O que coloco na poesia a seguir é um desabafo em relação à situação e, de certa forma, uma homenagem ao nordestino. Povo que sofre, mas mantem a firmeza, atitude e o sorriso. Foi considerado recentemente (em pesquisa divulgada em novembro de 2012) como o "povo mais feliz do Brasil". A  hospitalidade, o espírito alegre e a vontade de fazer o bem, apesar de tudo,  ajudaram a receber esse "título". 
                    A postagem deveria ter sido no início de 2013, mas ainda há tempo. 
                    Vamos em frente!



Ano Novo, Velha Seca.
Cadê a chuva São Pedro?
   (Carmen Lúcia Couto)


 Ano Novo
Velho mundo
Sertão brabo...solidão
Mesmos rostos
Fome, miséria,
solo rachado,
ermo na imensidão.

Cadê a chuva São Pedro?
Acaba com essa seca
Leva embora a tristeza
o calor, as mortes... a fome.
Deixa o homem trabalhar,
plantar e ter um nome.

Cadê a chuva São Pedro?
Tira esse povo do castigo
devolve a esperança
de que o ano novo vem trazendo
fartura, amor e saúde pra criança.

Nordestino é povo alegre,
hospitaleiro e gentil.
Disse, até, uma pesquisa:
é o povo mais feliz do Brasil!
Sofre e sorri,
(alguns nem dentadura tem!)
mas mantem o brilho no olho
e o coração de quem quer bem.
Gente batalhadora e guerreira.
Que mesmo ardendo na estiagem
encontra força, querer e coragem
para prosseguir e viver.
Vendo o bicho no quintal morrer,
o filho adoecer... a mulher padecer.

Alguns acham ânimo pra deixar sua terra
e procurar em outra cidade sobreviver.
Muitos lá fora ficam pra sempre,
deixam viúvas suas Marias
e sem pai, suas crias.
Aqueles que voltam,
trazem a decepção e a certeza
de que um mundo melhor
somente junto aos seus, encontrarão.

Chega então o político.
Candidato a doutor salvador,
que para ganhar o voto
rouba a alma do inocente
por um quilo de arroz
ou um punhado de semente.
Promete também um par de sapatos
e um saco de feijão.
Do sapato entrega o pé direito,
porém o esquerdo só depois da votação.
Perdendo ou ganhando,
o doutor vira as costas
e o inocente, coitado,
fica sem um pé do sapato,
sem a semente na roça e
sem arroz e feijão no prato.

Cadê a chuva São Pedro?
A história da seca é sempre igual.
Quem é o culpado?
O homem, que não sabe conviver com ela?
São Pedro, que chuva não manda?
Ou o doutor salvador, que pega o voto,
 o dinheiro do cargo e esquece o eleitor?
Passados quatro anos a mesma situação.
Novas promessas, poucos resultados,
mas o importante é ganhar a eleição!!!

O inocente, coitado,
fica a olhar para o céu.
No desejo... na vontade e no medo.
Não desiste de rezar, de implorar e, 
com lágrimas, indagar:
cadê a chuva São Pedro?

************************

“não tem carranca, nem trator, nem alavanca.
Quero ver quem é que arranca nós aqui desse lugar”
(A Violeira, Chico Buarque)


Um comentário:

  1. Filhos : da Caatinga
    DeRobson Sampaio

    Ôxente, meu fio,
    cadê o boi no cercado
    e toda aquela plantação?
    Foi embora no vento,
    sumiu tudo no céu,
    feito ave de arribação.
    Agora, é só terra em brasas,
    ardendo que nem tição.

    Do gado só as cabeças,
    igual assombração.
    Feito rio escorregadio,
    a terra plantada se foi,
    levada no deslize do chão.
    Ai, que tamanha judiação.

    Inhô, num gema não,
    basta de choro e reza,
    feitos só de lamentação.
    A terra é seca e batida,
    igual alma sem alumiação,
    mas, de gente com fé no Santo,
    indo e vindo, solta pelo Sertão.

    São os filhos da Caatinga,
    sofrendo toda humilhação.
    Mas, briga, mata, esfola ou morre,
    mesmo sem ser Lampião.
    Ôxente, sêo Capitão,
    Virge, Santa Maria,
    pra quê ser tão valentão?
    Num tem nem quase a vida
    e, muito menos, esse chão.

    Crz credo, Ave Maria,
    dê-me a benção Padim Ciço,
    pois, é só dor no meu Sertão.
    Mas, juro meu Santo querido,
    que de fome, a gente num morre não.


    ResponderExcluir

Seu comentário é muito importante. Obrigada!